Não, o amor não é algo totalmente compreendido pelos seres humanos, mas talvez eu possa palpitar sobre o assunto. Eu não o conheço de verdade. Não sei ao certo o que realmente é o amor. Posso até dizer que nem mesmo nunca o senti. A única coisa que sei é que tenho prazer em viver a vida. E o amor, está no prazer!
E neste prazer de viver, encontro as coisas que me faz bem. Acredito que como a vida faz comigo, o amor deve fazer aos que recebem sentimentos bons dentro do peito, da barriga ou do coração.
Vou contar um história recente que aconteceu comigo. Sábado, show de Beyoncé no Morumbi. Depois de tanta luta para ficar mais ou menos perto do palco, a forte chuva de verão resolveu cair. Caiu sem dó! Além das capas de chuva, e muitos guarda-chuvas quebrados, sapatos ficaram no meio do asfalto barrento, quando todos resolveram correr para as arquibancadas, tentando em vão se proteger da chuva. Eu bem que tentei ficar onde estava, aproveitando o espaço que abrira, mas os granizos e grossas gotas geladas, me obrigaram a correr.
Apesar de tudo isso, adiante teria motivos de sobra para comemorar. Pelas 19h00, a chuva foi parando e resolvemo voltar para o meio da pista. Meu amigo, Tiago, logo começou suas graças e atraiu o olhar de algumas pessoas ao nosso redor. Neste momento, eu ainda estava mais preocupado em ver o show do que qualquer outra coisa, como fazer amizades.
O tempo passou, a cerveja do copo secou e a demora para começar alguma coisa já começava a irritar. Em um giro de olhar pelo Morumbi, parei. Choquei. Fantasiei.
[Agora minha contribuição para o achismo do amor]
Uma garota, refletindo todas as características que admiro na vida. Simplicidade, felicidade, eternidade, liberdade, vontade e, frio na barriga. [Não admiro frio na barriga, mas esse foi o melhor que já senti].
Ela chegou perto de mim, no meio daquela multidão, sem mover uma folha no chão, dentro de mim, causava um furacão. Quando a olhei, e ela meio que sem graça, virou o rosto, não soube o que pensar. Fiquei feliz. É por isso que eu falo - Não faço idéia do que seja o amor, mas naquela tarde, se realmente existe, cheguei o mais perto que uma pessoa pode chegar dele.
Parece que o amor faz com que tudo seja melhor. Entende? Tudo se torna agradável. Tudo se torna possível! O que parece ser importante perde toda a importância. E tudo que parece ser simples, com o amor se torna moderno. E tudo isso, só por causa do amor!
O show começa! Ivete agita a galera, todos pulam, todos cantam, e eu ali, parado, em choque, sorrindo bobamente, olhando o próprio amor em minha frente. Olhando e sentindo a vida que me faz bem.
Aos passos, me aproximei. Aos poucos, a olhei. Aos milésimos, ouvia o coração bater diferente, como mostrou o Globo Repórter Especial, sobre o assunto em questão, amor.
Ela estava com uma amiga. Felizes por estarem em São Paulo. Felizes por estarem no show da Ivete Sangalo e Beyoncé. O que mais poderiam esperar de uma bela tarde de sábado nublado e chuvoso? Acertou quem escolheu a palavra: Fotos!
Toda mulher ama fotos. Em um show desse o que não poderia faltar era máquina fotográfica. E lá foram elas, talvez para a primeira foto do dia. Bem na minha frente. Parece que me convidando a sair na foto, mas não. Não? Não esperei o convite e como quem não quer nada, fiz uma pose engraçada atrás. Logo que o flash saiu, virei fingindo olhar algum lugar. Pude perceber que elas olharam para trás, e eu segurei em rir. Mas ali, o bom sentimento já estava reinando.
Não se esquecendo do meu amigo e de suas novas amizades feitas quando eu comecei a flutuar, fiquei com eles.
- Olha a cerveja. Olha a água! – berrou o vendedor em meus ouvidos.
- Ei, pega uma pra mim, por favor? – ela disse pra mim.
- Claro. Cinco reais – avisei.
Depois disso, estava mais do que na hora de conversar. Frente a frente. Olhando de perto aquele sorriso simples e mais belo do mundo. Aqueles olhos sem graça, baixos e puxadinhos. Ah, bons momentos! Algumas risadas e já não sabia mais o que fazer para esconder tamanha a minha timidez diante daquilo, que juro ser o amor.
O show começa. Ficamos pertos. Estou atrás dela, de olho em qualquer movimento diferente. Pessoas mudam de lugar, abrindo espaço para frente. E claro, lá vão elas. Ela olhou para trás para ver se eu iria, e diante da minha preocupação com meu amigo que já estava bem atrás com uma de suas amizades novas, ela me puxou. – Vêm!
Neste momento parei um pouco de pensar e curtir o show. Não era Ivete, mas sim Beyoncé, merecia nem que fosse um pouco da minha atenção. De tão perto que estávamos, sentia o bom cheiro que fluía de seus cabelos. Ela estava contente. Eu estava duas vezes mais.
Na música predileta dela, Video Phone, ela aceitou o convite em que eu a fizera anteriormente. A coloquei nos ombros e a levantei como uma pena. Poderia ficar daquele jeito a noite toda, sem reclamar. Quando a música terminou, com um abraço ela me agradou, e assim, juro pra você, meu coração quase parou.
O show ia caminhando para o final, e as palavras dentro de mim não chegavam nem mesmo na ponta da língua. Minhas atitudes nunca foram tão travadas. Beyoncé, parecendo sentir o clima entre nós, finalizou com Halo, a música que pra mim, naquele momento, não poderia ser melhor, já que fala de um amor puro. Amor divino.
O show termina e eu não fiz nada além do que escrito acima. No desespero, tento pegar o celular, mas parecia estar preso no bolso, então, vai Orkut mesmo.
- Ei, vocês tem Orkut?
- Sim. – respondeu sua amiga. – Você vai me achar como Fulana de Tal. Fulana com ‘F’ e Tal com “T”.
- Legal, vou procurar vocês, para trocarmos fotos.
E então, a hora nem um pouco esperada, o tchau, o adeus ou sei lá o que, já que elas não moram em São Paulo.
- Valeu pela Cia, falei.
Estalos de beijos no rosto e a lembrança.
- Em sua cidade são dois né?
E ali terminava minha experiência in loco com o amor. Acho que se realmente existe o amor, ele estava comigo, naquela multidão, em meio a todos os berros, a paz reinava. Diante de tantas luzes, só o olhar dela me iluminava.
Senti-me leve. Mas então lembrei que ela estava indo embora. E agora, o que irei fazer? – pensei alto.
Fiquei imaginando. Quer dizer, relembrando os momentos. Desde o primeiro olhar, até os dois beijos no rosto. Fiquei desse jeito a noite toda.
No dia seguinte, ao acordar… Não, eu não fui a procurar no Orkut. Eu estava em paz! Paz que ficou ainda mais visível em meu olhar quando de tarde, daquele domingo em que eu sabia que ela estava decolando, abri meu Orkut e lá estava ela, me pedindo para aceitá-la como amiga. E um recado: “Oi, você é o rapaz que me levantou várias vezes no show…”
Pois bem, acho que o amor existe sim e está diante dos nossos olhos quando deve estar. Não adianta sairmos por ai, procurando e procurando. O amor é quem nos busca, e no tempo dele, nós é que somos pegos de surpresa.
Júlio Frutuoso
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