É madrugada, e com os cotovelos apoiados numa janela aberta do décimo terceiro andar um homem observa a madrugada transcorrer. Por um momento ele se lembra de seu avô, que sempre dizia que no silêncio da alvorada é possível ouvir suas necessidades internas, Deus e o sussurrar do mundo.
Por se lembrar disso, sorri singelamente e sente que algumas lágrimas pedem para escorrer, mas respira fundo e as impede. Ele sente falta de alguma coisa. Talvez seja saudade, mas de quem e de quando? Ele não sabe.
Imagens embaralhadas passam por sua cabeça, mas não consegue encontrar um foco. Tenta fazer planos para o dia seguinte, uma sexta-feira santa, mas se queixa de tudo o que imagina e logo desiste.
Ele deseja um cigarro, mesmo não sabendo fumar. Imagina uma taça de vinho seco, mesmo sem saber degustar. Cantarola em pensamentos uma música que não gosta e se pergunta o que está fazendo.
Ele está perdido dentro de si.
Seus olhos piscam pesado. Cachorros latem na rua sem motivo e então ele se cansa. Com as mãos penduradas no pescoço, ele segue para seu quarto. Diante da porta, olhando para sua cama com o mesmo lençol encardido da noite anterior, sentiu falta de quem ali um dia se deitou. Naquele momento era o que ele mais queria. Uma companhia para fazer amor contigo.
Pensou em sair e procurar por prazer barato, rápido e que não precisasse de muitas delongas, mas se recusou gastar o pouco dinheiro que tinha. Mudou então seu rumo para a pia do banheiro, onde molhou seu rosto e se olhou no espelho, reparando na água que escorria por seu rosto.
Parecia entender que sua noite terminava ali.
Não enxergando outra saída, e sem razões para ainda estar acordado, voltou para seu quarto, onde se jogou na cama e ao mesmo tempo em um sono pesado, sem nem mesmo agradecer por mais um dia de vida.
Júlio Frutuoso
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